" Fiz a
Escola Primária no Pombalinho, concelho de Santarém, onde fui aluno de meu pai, João José
da Fonseca ,
que ali exerceu a sua actividade durante 17 anos, de 1916 a 1933 e onde passei
grande parte da minha infância e da minha adolescência.
Era o tempo das
cheias que inundavam anualmente os campos vizinhos e nós aproveitávamos para
patinhar nelas descalços com água até quase à barriga, das cavalhadas, da pesca
às enguias com remilhão, de noite no Rio Alviela, das touradas à corda e das
ferras na Quinta da Melhorada do lavrador e ganadeiro, João da Assunção
Coimbra, e das "bateiras", piquenique campestre de convívio e de
confraternização entre o povo do Pombalinho. Com as barragens, as cheias já são
agora muito raras, mas, tanto quanto julgamos saber, as "bateiras"
continuam a realizar-se anualmente como há 70 anos.
Os Barreiros, os
Sabinos, os Menezes e os familiares do Barão de Almeirim eram os grupos sociais
de maior peso no Pombalinho de há 70 anos. E o Armindo Sabino da Rua de Cima,
os Barros da Rua do Norte e os irmãos Brás Barrão da Rua de Baixo, os nossos
condiscípulos e contemporâneos. O senhor Américo que morava no largo da Igreja
e me levava de vez em quando à pesca das enguias no Rio Alviela e o mestre
Júlio Freire, que nos ensinou sem êxito a tocar bandolim, são também
Pombalinhenses do nosso tempo.
O bandolim que
tocávamos nas lições com o mestre e uma pequena espingarda de ar comprimido que
me deram para brincar e treinar pontarias, ainda se encontram na minha casa em
Lisboa.
De brinquedos e
entretenimentos da minha infância, recordamos também: o pião, as atiradeiras,
os estoques, as ventoínhas, o berlinde, o jogo de botôes e o tricot, que eu
fazia com um carrinho de linhas e servia de cordão para jogar o pião. Com
excepção de um outro pião e da espingarda de ar comprimido, tudo o mais era
produção de artesanato pessoal.
Falta falar da
"papança", pétalas das flores dos marmeleiros que marginavam o
caminho para a Alverca, braço de água parada, alimentado pelas cheias anuais do
Rio Tejo, e que comíamos quando lá íamos tomar banho em pelota ou pescar
pequenos peixes com cana, bóia de cortiça e anzol. Ao tempo, não havia
problemas nem se falava, nem em poluição, nem em ambiente, nem em
radioactividade, nem em droga, nem em sida, nem em "vacas loucas",
como agora em 1996, passados 70 anos. Todavia e não obstante tudo o que
acabámos de memorizar, o que mais marcou para todo o sempre os meus sentimentos
de patriota, foram os acordes vibrantes e eufóricos do "HINO DA
RESTAURAÇÂO", com que a Banda Local do Pombalinho me acordava nas
madrugadas dos PRIMEIROS DE DEZEMBRO, e do qual transcrevemos a seguir o
segundo terceto do soneto da sua letra:
Avante! Avante!
É voz que soará triunfal!
Vá avante mocidade de Portugal "
É voz que soará triunfal!
Vá avante mocidade de Portugal "
Nota - Este texto foi extraído das
"Memórias" do Vice-Almirante José da Cruz Moura da Fonseca. Este
oficial da Marinha nasceu em Meimoa , Penamacor, em 14 de Outubro de 1913
e faleceu em Lisboa a 07 de de Agosto de 1998. Era filho de João José da Fonseca , simpáticamente conhecido no
Pombalinho pelo professor "Fonsequita".
Colaboração
documental - Joaquim MB Mateiro


























