26 julho 2007

Café do Chico Minderico




O Café do Chico Minderico foi durante muitos anos um ponto de encontro de várias gerações que por ali passaram e que viam naquele espaço um lugar aprazível e de divertimento para o preenchimento de alguns momentos de lazer.

Era um dos locais do Pombalinho que dispunha de um ambiente acolhedor e espaçoso, permitindo a quem quisesse no fim de um intenso dia de trabalho, trocar dois dedos de conversa e refrescar a garganta com o que de melhor podia ser servido, os vinhos da região ou a imperial  bem fresquinha que era sempre servida cuidadosamente em copos previamente refrescados.

Eram nos fins-de-semana que os pombalinhenses frequentavam com maior assiduidade este café de maior movimento da nossa aldeia. Uma azáfama intensa na cozinha anexa e que servia simultaneamente para o dia a dia da família que habitava no primeiro andar do edifício, fazia perder a paciência à Maria Adelaide, sempre que o Chico Minderico lhe gritava do balcão a pedir mais um pires de berbigão ou umas postinhas de peixe frito do rio Tejo, para saciar a exigência de alguns fregueses mais impacientes. Para a memória dos cheiros de todo quantos que por ali passaram nesses domingos quentes de Verão, não mais poderão ter esquecido, concerteza,  o destes dois petiscos que se espalhavam pelos ares das redondezas provenientes deste saudoso café da rua Barão de Almeirim.


Quando apareceram as primeiras televisões no Pombalinho, por volta do início dos anos sessenta, formavam-se autênticas peregrinações em direcção aos Cafés  que as tinham adquirido. No Café do Chico Minderioco havia lotação esgotada na sala de entrada, sempre que a RTP transmitia em sinal directo, teatro, touradas, jogos de hóquei em patins, desafios de futebol e sempre que havia alguma final ou jogo decisivo com a participação de  equipas portuguesas. O recurso ao salão maior que serviu mais tarde para a instalação de jogos de snooker, era o recurso inevitável para poder acolher tão grande número de telespectadores. Recordo-me a propósito de ver aí, numas cadeiras improvisadas, uma das muitas finais europeias em que o Benfica brilhantemente participou.




Mas também para as minhas memórias e de outros jovens que ali começaram a contactar a caixinha mágica que veio revolucionar o mundo, não mais esqueceremos a magia do "Feiticeiro de Oz", as aventuras da série "Bonanza", as representações teatrais com participações de Paulo Renato, a energia de Palmira Bastos a dizer que "Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores" na peça “As árvores morrem de pé”, o Neil Armstrong a pisar Lua pela primeira vez ou a brilhante participação de Portugal no Mundial de Futebol em 1966. Anos mais tarde a RTP ousou de entre outros programas, na transmissão das corridas de Fórmula 1. Era um espectáculo televisivo e desportivo com diminuto poder de captação entre os telespectadores do Pombalinho, éramos mais ligados ao ciclismo, futebol, hóquei patins e outras modalidades mais massificadas, mas havia sempre um telespectador que marcava presença bem junto ao televisor de forma a poder acompanhar atentamente os comentários feitos pelos jornalistas! Era ele Francisco Presume. Decerto um grande apaixonado pelos carros e pela prova maior do desporto automóvel.

Mas este lugar frequentado pelos Pombalinhenses, não se limitava só aquela imagem muito comum na maioria destes estabelecimentos em que o grande movimento sempre se iniciava a partir e em redor do balcão. Como devem estar recordados, o espaço interior proporcionava outras mais  actividades lúdicas tão do agrado da várias gerações que por ali passaram. Havia a sala maior  destinada aos jogos de cartas, damas e mais tarde bilhar, depois uma outra de dimensões mais reduzidas, onde estavam instalados dois jogos de matraquilhos e uma mesa de ténis de mesa e ainda mais ao fundo do casario, uma outra destinada ao jogo da malha, vulgarmente conhecido por chinquilho. A fazer ligação a todas elas, um pátio de dimensões rectangulares funcionava igualmente também para os jogos de mesa, mas a sua principal e inesquecível ocupação foi na realização de matinés dançantes e nas transmissões de filmes pelo saudoso Salvador .


Passados alguns anos e por razões naturais da vida, este local tão especial e querido de tantos Pombalinhenses, foi perdendo as características ambientais que foi cimentando ao longo dos tempos. E foi com muita tristeza que vimos desaparecer do Pombalinho um dos Cafés mais emblemáticos para a vida de tantos que por ali passaram na procura de uns breves momentos de convívio e confraternização. Não vivemos de saudades..., é certo, mas a memória, essa, dificilmente a poderemos apagar. 



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2 comentários:

Teresa Cruz disse...

Lendo o que escreveste quase fico com pena de não ter conhecido o Salvador.

MGomes disse...

Olha Teresa, O Salvador possívelmente foi muito diferente do retrato escrito que lhe fiz. Agora de uma coisa estou certo, este Salvador conheci-o no Pombalinho há cerca quarenta anos. E é fantastico em como me recordo de todos estes pormenores que envolviam a mecânica necessária para a rodagem das fitas.
É claro que gostarias de o teres conhecido!!!