
O Café do Chico Minderico foi
durante muitos anos ponto de encontro de várias gerações que por ali
passaram e que viam naquele espaço um lugar aprazível e de divertimento para o
preenchimento de alguns momentos de lazer.
Era um dos locais do Pombalinho que
dispunha de um ambiente acolhedor e espaçoso, permitindo a quem quisesse, no fim
de um intenso dia de trabalho, trocar dois dedos de conversa e refrescar a
garganta com o que de melhor podia ser servido, os vinhos da região ou a imperial bem fresquinha que era sempre cuidadosamente tirada em copos previamente refrescados.
Era nos fins-de-semana que os
pombalinhenses frequentavam com maior assiduidade este Café de maior movimento
da nossa aldeia. Uma azáfama intensa na cozinha anexa e que servia
simultaneamente para o dia a dia da família que habitava no primeiro andar do
edifício, fazia perder a paciência à Maria Adelaide, sempre que o Chico
Minderico lhe gritava do balcão a pedir mais um pires de berbigão ou umas
postinhas de peixe frito do rio Tejo, para saciar a exigência de alguns
fregueses mais impacientes. Para a memória dos cheiros de todo quantos que por
ali passaram nesses domingos quentes de Verão, não mais poderão ter esquecido,
concerteza, o destes dois petiscos que
se espalhavam pelos ares das redondezas provenientes deste saudoso café da rua
Barão de Almeirim.
Quando apareceram as
primeiras televisões no Pombalinho, por volta do início dos anos sessenta, formavam-se
autênticas "romarias" em direcção aos Cafés que as tinham adquirido. No Café do Chico
Minderico havia lotação esgotada na sala de entrada, sempre que a RTP
transmitia em sinal directo, teatro, touradas, jogos de hóquei em patins,
desafios de futebol e sempre que havia alguma final ou jogo decisivo com a
participação de equipas portuguesas. O
recurso ao salão maior que serviu mais tarde para a instalação de jogos de
snooker, era o recurso inevitável para poder acolher tão grande número de telespectadores.
Recordo-me a propósito de ver aí, numas cadeiras improvisadas, uma das muitas
finais europeias em que o Benfica brilhantemente participou.

Mas também para as
minhas memórias e de outros jovens que ali começaram a contactar a caixinha
mágica que veio revolucionar o mundo, não mais esqueceremos a magia do
"Feiticeiro de Oz", as aventuras da série "Bonanza", as
representações teatrais com participações de Paulo Renato, a energia de Palmira
Bastos a dizer que "Morta por dentro, mas
de pé, de pé, como as árvores" na peça “As árvores morrem de pé”, o
Neil Armstrong a pisar Lua pela primeira vez ou a brilhante participação de
Portugal no Mundial de Futebol em 1966. Anos mais tarde a RTP ousou de entre
outros programas, na transmissão das corridas de Fórmula 1. Era um espectáculo
televisivo e desportivo com diminuto poder de captação entre os telespectadores
do Pombalinho, éramos mais ligados ao ciclismo, futebol, hóquei patins e outras
modalidades mais massificadas, mas havia sempre um telespectador que marcava
presença bem junto ao televisor de forma a poder acompanhar atentamente os
comentários feitos pelos jornalistas! Era ele Francisco Presume. Decerto um
grande apaixonado pelos carros e pela prova maior do desporto automóvel.
Mas este lugar
frequentado pelos Pombalinhenses, não se limitava só aquela imagem muito comum
na maioria destes estabelecimentos em que o grande movimento sempre se iniciava
a partir e em redor do balcão. Como devem estar recordados, o espaço interior
proporcionava outras mais actividades lúdicas tão do agrado da várias
gerações que por ali passaram. Havia a sala maior destinada aos jogos de cartas, damas
e mais tarde bilhar, depois uma outra de dimensões mais reduzidas, onde estavam
instalados dois jogos de matraquilhos e uma mesa de ténis de mesa e ainda mais
ao fundo do casario, uma outra destinada ao jogo da malha, vulgarmente conhecido
por chinquilho. A fazer ligação a todas elas, um pátio de dimensões
rectangulares funcionava igualmente também para os jogos de mesa, mas a sua
principal e inesquecível ocupação foi na realização de matinés dançantes e nas
transmissões de filmes pelo saudoso Salvador .
Passados alguns anos e
por razões naturais da vida, este local tão especial e querido de tantos
Pombalinhenses, foi perdendo as características ambientais que foi cimentando
ao longo dos tempos. E foi com muita tristeza que vimos desaparecer do
Pombalinho um dos Cafés mais emblemáticos para a vida de tantos que por ali
passaram na procura de uns breves momentos de convívio e confraternização. Não
vivemos de saudades..., é certo, mas a memória, essa, dificilmente a poderemos
apagar.
2 comentários:
Lendo o que escreveste quase fico com pena de não ter conhecido o Salvador.
Olha Teresa, O Salvador possívelmente foi muito diferente do retrato escrito que lhe fiz. Agora de uma coisa estou certo, este Salvador conheci-o no Pombalinho há cerca quarenta anos. E é fantastico em como me recordo de todos estes pormenores que envolviam a mecânica necessária para a rodagem das fitas.
É claro que gostarias de o teres conhecido!!!
Enviar um comentário