A adiafa na verdade, é tudo isto! Mas
essencialmente consiste na realização de um ambiente festivo que se celebra, ou
celebrava, no fim das colheitas! Hoje com a industrialização agrícola e a
consequente substituição de mão de obra pela força férrea das máquinas, muito
dificilmente assistiremos a este tipo de confraternização pelos campos do nosso
Ribatejo.
E é justamente para que
possamos imaginar um pouco dessa comemoração, que recorri a um livro editado em 1864 para dele retirar
excerto de um capítulo bem ilustrativo de toda a envolvência que rodeava a
preparação a adiafa! Começa então assim:
“... Estamos em Novembro, e o sopro gelado do
inverno já convida a acender-se o braseiro, e a agruparem-se-lhe em torno, as
famílias, sentindo crepitar a lenha, e estalarem as castanhas e as bolotas, que
as crianças assam alegremente ao lume da lareira.
A quinta, onde eu agora tenciono
introduzir os meus leitores, é vasta e produtiva. A aragem fria de Novembro faz
ondular a copa dos seus imensos pinhais, e um exercício de varejadores doideja,
ri, e tagarela por baixo da folhagem cinzenta das suas oliveiras. As vinhas
misturam-se a perder de vista com as searas; e o pomar, a horta, e o jardim
vão-se abrigar à sombra das paredes da casa, ousando até este último, destacar
como vedetas, roseiras e jasmins, que vão, trepando silenciosamente, espreitar
pelas janelas, e enviar o seu perfume, como suave homenagem, aos donos desse
pequeno mundo.
No dia em que chegamos terminou a colheita
da azeitona, e, segundo o costume, há de se celebrar a festa, cuja risonha
perspectiva bastará para suavizar, aos olhos dos aldeãos, todos os trabalhos de
dois meses. Depois do labutar incessante vem o dia de regozijo! Depois da
campanha fadigosa o triunfo ambicionado. Os varejadores vão subir ao Capitólio!
Os almocreves de notícias da localidade já
espalharam por toda a parte que ia haver adiafa na quinta de tal. Nem os
pregadores da azzhala da guerra santa contra os cristãos podiam ser tão bem
acolhidos pelos fiéis crentes de Mafoma, como estes noticiaristas orais o eram
pelos alegres camponeses dos arredores! Vai haver adiafa, adiafa! Palavra
mágica, que envolve a ideia de vinho á descrição, comida a fartar, e bailarico
até as pernas dizerem “basta”, Adiafa! Isto é a festa da azeitona, a noite de
benefício dos varejadores, o gáudio rasgado, o reinado da folia! Vão lá
oferecer o trono do universo sem adiafa!
Subamos a escada de pedra, ao cimo da qual
se topa o alpendre e entremos sem receio na vasta casa de entrada, mobilada
simplesmente com bancos de pinho. A hospitalidade é um dever sagrado dos
proprietários do Ribatejo, e nenhum, por mais duro que tenha o coração, ousa
esquivar-se ao cumprimento dele. Subamos pois: espera-nos um bom acolhimento.
Vai um grande ruído a essa hora na casa de
entrada, onde penetrámos. Nesse dia, como dissemos, findara a colheita da
azeitona, e estava-se realizando a adiafa. Um pequeno olival dos donos da
quinta, fora reservado para o último varejo, mais para satisfazer a uma
formalidade, do que por não se poder completar a colheita na véspera do grande
dia. Mas a etiqueta camponesa assim o exige. Varejar o pequeno olival é como
pôr a última pedra num edifício, pretexto para a festividade. Já para esse
trabalho os varejadores e apanhadeiras foram vestidos com os seus fatos ricos,
e procedeu-se ao varejo com uma gravidade que não deslustraria o inaugurar de
um caminho de ferro.
Antes do meio dia estava tudo pronto, e os alegres
varejadores, com o coração palpitante, enfileiraram-se atras do seu chefe, que
arvorou, em tão solenemente momento, a bandeira da procissão, onde figurava um
registo da Virgem, cercado de vistosos laços de diferentes cores. O capataz
abriu a marcha e caminharam na sua retaguarda os festivos pares aldeãos. Apenas
os donos da casa avistaram ao longe a comitiva, ordenaram que se preparasse a
mesa, onde os pobres trabalhadores se haviam de regalar com um banquete, cuja
suave recordação bastasse para iluminar, com esplendida luz gastronómica, as
trevas da futura e forçada abstinência. Um bom jantar português, farto e
suculento! A sopa fumegava em cima da mesa, a vaca e o arroz formavam depois em
ordem de batalha. À hora em que entramos, e em que, segundo dissemos, o sol se sumia
no acaso, sumia-se também o último pedaço do apetecido manjar no último recanto
do estômago aldeão em quanto esperavam saciados que a noite descesse para
recomeçarem as danças!!!! "
Por último, um testemunho bem
mais recente de alguém que viveu e ainda vive a adiafa na sua terra!
"... Hoje o
meu bom amigo Pedro Melro, emérito e orgulhoso produtor de vinho de Alcanhões,
convidou-me para a Adiafa. Para quem não sabe, a Adiafa significa a festa que se
oferece aos trabalhadores no último dia das vindimas. De acordo com o
dicionário a palavra vem do árabe addyafa e significa banquete.
Embora esteja um
pouco desvirtuada, esta tradição fez parte do meu crescimento e habituei-me a
ouvir falar dela e algumas vezes a, orgulhosamente, participar. Digo
orgulhosamente, porque nessas alturas fazia também parte do rancho da vindima,
quase sempre por amizade e camaradagem.
Recordo com
saudade, o convívio com aquelas gentes simples, o cheiro da terra e das uvas, o
suor nos rostos, as cantigas e os cestos pesados que me faziam sentir um homem
naquele reino de Homens e Mulheres.
Hoje senti-me
quase um intruso, como se não merecesse comer e beber como os outros! O pão
caseiro não me soube tão bem. A lebre deliciosa e a sopa de pedra. Os tomates
apanhados da terra, o vinho maravilhoso. As azeitonas. O vinho. O vinho!
Para o ano duas
resoluções ficaram. Vou primeiro à vindima e não repito a estupidez de não
levar a máquina fotográfica!"