Pelos caminhos intermináveis e curvos da internet, somos por vezes
agradávelmente surpreendidos com textos que dificilmente imaginaríamos vir a
encontrar. É o caso do que hoje publicamos, da autoria de José Bray, retirado
do blog intitulado "Bray". Tem a particularidade de nele ser
referenciada uma interessante passagem de vida do nosso bem conhecido
conterrâneo, Júlio de Conceição Freire.
Como muitos de nós sabemos, Júlio Freire foi uma daquelas
personalidades carismáticas do Pombalinho. Ao recordarmos nele aquele ar de
quem muito pensava da vida, transparecia a quem com ele se cruzava, que ela, a
vida, lhe causava algumas apreensões. Homem de ideias firmes, era possuidor de
uma cultura acima da média, se tivermos em consideração o meio social de uma
aldeia como o Pombalinho! Mas acima de tudo era um crítico da vida, da vida que
ele não gostava! Muito boa gente achava-o por isso, rezingão! Mas ele lá tinha
as suas razões!
Quem com ele teve o privilégio de conviver, nem que tivesse
sido por breves momentos, aprendeu sempre algo que em mais lado nenhum se
ensinava! Era pessoa de poucas palavras, imbuído por vezes de um certo
afastamento social, não facilitando por isso o diálogo. Mas naquela noite de
verão, não sei o que lhe passou pela cabeça e quando eu vinha do Chico
Minderico, depois de assistir a mais um serão televisivo, chamou-me e disse-me:
"Oh Calvaria, chega aqui para te mostrar uma coisa"!
Foi dentro de casa e pouco tempo depois quando regressou, trazia um livro
grosso e com sinais já de algum uso! Abriu-o para eu ver e disse-me: "Vês,
aqui podemos saber muita coisa da história do mundo!!!"
Fascinado pelo que os meus olhos contemplavam, pude observar pela primeira vez
um Dicionário Ilustrado !
Bem, mas vamos lá ao texto de José Bray, depois desta pequena
deriva em memória, também ela, de Júlio Freire.
Começa então assim:

Depois da publicação
deste texto de José Bray, recordei-me que também neste mesmo contexto, apoio a
Humberto Delgado e prisão em Aljube, já Guilherme Afonso a Júlio Freire se
tinha referido numa resposta a uma carta que então lhe dirigi no ano de 2004.
Assim me escreveu o
nosso amigo e conterrâneo, a 21 de Junho desse ano:
"Diz o
Manuel Gomes, ao referir-se ao Júlio Freire (aí está, entre si e ele, um dos
tais encontros que o acaso proporcionou e que o meu amigo soube valorizar), que
ele foi, e é, uma referência do Pombalinho. Como é natural, já o foi mais do
que é, porque os anos vão passando e as referências vão-se esbatendo. Sabe que
o pai dele (também Júlio, se não estou em erro) foi (e falo mesmo só no
passado. Quem é que, hoje, se lembre dele?) uma referência ainda maior que a do
filho? No meu tempo e no Pombalinho não havia ninguém que sequer se lhe
aproximasse em conhecimentos. E, além do mais, gostava de ensinar e fazia-o
gratuitamente. O meu pai (e não só ele, julgo eu), já ao chegar à idade adulta,
aprendeu com ele a ler. Curiosamente, só a ler. E só a ler letra impressa -
jornais e livros. Mas lia muito bem. No entanto, a escrever apenas aprendeu a
rabiscar o nome, que era José dos Santos, e não José Afonso. Afonso era o nome
próprio do pai dele, meu avô que não conheci.
O Dicionário
Ilustrado do Júlio Freire de que o meu amigo fala era o "Dicionário
Prático Ilustrado Lello", da Editora Lello & Irmão, que eu também
folheei algumas vezes e de agora possuo uma edição de 1989.
Sabe que em 1989 o
Júlio Freire não pode votar? Realizaram-se nesse ano eleições para a
Presidência da República em que o candidato da Oposição era o General Humberto
Delgado, de cuja candidatura o Júlio Freire era o delegado no Pombalinho, e
creio que também o meu primo Joaquim Correia dos Santos (o Canca). E creio que
também a ambos (ao Júlio Freire, de certeza) a PIDE recolheu para o Aljube
antes do dia das eleições e lá os manteve durante pelo menos três meses."
Nota - A foto de
Júlio Freire foi gentilmente cedida por José Bray.