"Quero uma gasosa fresca!"
- pedi eu, timidamente, depois de ter entrado no Café e
visualizado, a uma curta distância de mim, a senhora Domicília no espaço
destinado à venda de produtos de mercearia!
Era um dia de muito
calor, daqueles em que andar na rua só se fazia quase por motivos inadiáveis! O
sol abrasador daquela tarde de Agosto era convidativo ao encontro abrigado de
uma qualquer sombra, mas a ousadia da caminhada a que me propuz, não se fez
esperar, porque o que eu queria mesmo, naquele dia, era matar a
sede provocada por um calor que eu achava não ter o direito de suportar!
Assim pensando,
melhor o fiz! Saí de casa com cinco tostões no bolso e lá me dirigi ao
Café do senhor Manuel Gregório, situado no número 82 da Rua 1º de Dezembro!
No pequeno percurso, verifiquei como um grupo de libelinhas
esvoaçava por cima de uma pequena linha de água que corria na
valeta, proveniente de fugas por má vedação que por vezes existiam
na fonte da Rua de Baixo! Estes insectos, lembro-me de
assim ter feito a minha interpretação, deviam estar, tal como
eu, ávidos de se refrescarem, ou então, concluo hoje com muita mais
probabilidade de acerto, na procura de quaisquer nutrientes ou mesmo mosquitos
que pudessem contribuir para a sua alimentação diária! Tentei, ao vê-los no seu
voo ziguezagueante e muito por culpa da então minha ingenuidade, apanhar
um, mas estes seres vivos, multicolores, sabiam bem como responder a este
tipo de adversidades!
A senhora
Domicília ao ver-me, respondeu-me com aquele seu ar amável com que
sempre nos habituou:
- Olha Néu, hoje não tenho
gasosas, só há laranjadas! Queres?
- Não faz mal, levo na
mesma! Respondi eu, sem me importar muito com a
proposta sugerida!
As laranjadas naquele
tempo eram equivalentes aos nossos bem conhecidos refrigerantes de
hoje! A sua constituição era muito à base de àgua, açúcar e
naturalmente os imprescindíveis corantes artificiais! Eram vendidas em garrafas
de vidro incolor e por isso favoráveis a que o alaranjado da bebida
funcionasse perfeitamente ao encontro do apetite do consumidor!

No Café do Manuel
Gregório (pessoa respeitável de quem guardo, a título de curiosidade, a
lembrança de ter sido ele que me deu, nos deu a nós jovens adolescentes,
a conhecer duas bebidas inesquecíveis: o brandy Casal Sereno e
uma aguardente algarvia de medronho e mel, de marca Antonino)
para além dos seus proprietários, passaram por lá na função de
empregada de balcão, uma moça que não vejo desde a minha adolescência, de seu
nome Silva, mas também mais tarde, a Domicilia Narciso
e a sua irmã Teresa !
Esses tempos tinham
inevitavelmente um outro sentido! Lembro-me, a propósito, da noção que
nós, os mais jovens, tínhamos em relação às dimensões físicas
das coisas e de como afinal quanta diferença existe nesse imaginário
longínquo de olhar a vida!
Naquelas noites de
quintas feiras em que havia corrida de toiros em directo pela TV, ou nas
transmissões de hóquei patins com Portugal a dar grandes cabazadas aos seus
adversários, a sala do Café do Manuel Gregório enchia-se de gente
e uma "multidão" de olhar fixo para um
pequeno televisor instalado em cima dum parapeito quase junto ao
tecto, vibrava com a pega mais arrojada de António Zuzarte ou com os
inesquecíveis golos de Livramento!
Hoje quando entro
naquele espaço e me recordo desses tempos, interrogo-me como foi
possível, numa área onde não cabem seguramente mais do que
seis mesas quadradas de setenta centímetros de lado, a nossa capacidade
visual ter sido tão fiel ao sonho!
O tempo de regresso a
casa foi, naturalmente, em passada muito mais acelerada! A minha
fresquinha laranjada "AHA" estava "no
ponto"! Agora, nada me poderia opor ao prazer de um momento
tão ansiosamente esperado, naquela tarde quente de Agosto, à sombra
de uma velha figueira no quintal dos meus avós!