23 junho 2010

As Memórias de José da Cruz Moura Fonseca!


" Fiz a Escola Primária no Pombalinho, concelho de Santarém, onde fui aluno de meu pai, João José da Fonseca , que ali exerceu a sua actividade durante 17 anos, de 1916 a 1933 e onde passei grande parte da minha infância e da minha adolescência.

Era o tempo das cheias que inundavam anualmente os campos vizinhos e nós aproveitávamos para patinhar nelas descalços com água até quase à barriga, das cavalhadas, da pesca às enguias com remilhão, de noite no Rio Alviela, das touradas à corda e das ferras na Quinta da Melhorada do lavrador e ganadeiro, João da Assunção Coimbra, e das "bateiras", piquenique campestre de convívio e de confraternização entre o povo do Pombalinho. Com as barragens, as cheias já são agora muito raras, mas, tanto quanto julgamos saber, as "bateiras" continuam a realizar-se anualmente como há 70 anos.

Os Barreiros, os Sabinos, os Menezes e os familiares do Barão de Almeirim eram os grupos sociais de maior peso no Pombalinho de há 70 anos. E o Armindo Sabino da Rua de Cima, os Barros da Rua do Norte e os irmãos Brás Barrão da Rua de Baixo, os nossos condiscípulos e contemporâneos. O senhor Américo que morava no largo da Igreja e me levava de vez em quando à pesca das enguias no Rio Alviela e o mestre Júlio Freire, que nos ensinou sem êxito a tocar bandolim, são também Pombalinhenses do nosso tempo.

O bandolim que tocávamos nas lições com o mestre e uma pequena espingarda de ar comprimido que me deram para brincar e treinar pontarias, ainda se encontram na minha casa em Lisboa.
De brinquedos e entretenimentos da minha infância, recordamos também: o pião, as atiradeiras, os estoques, as ventoínhas, o berlinde, o jogo de botôes e o tricot, que eu fazia com um carrinho de linhas e servia de cordão para jogar o pião. Com excepção de um outro pião e da espingarda de ar comprimido, tudo o mais era produção de artesanato pessoal.





Falta falar da "papança", pétalas das flores dos marmeleiros que marginavam o caminho para a Alverca, braço de água parada, alimentado pelas cheias anuais do Rio Tejo, e que comíamos quando lá íamos tomar banho em pelota ou pescar pequenos peixes com cana, bóia de cortiça e anzol. Ao tempo, não havia problemas nem se falava, nem em poluição, nem em ambiente, nem em radioactividade, nem em droga, nem em sida, nem em "vacas loucas", como agora em 1996, passados 70 anos. Todavia e não obstante tudo o que acabámos de memorizar, o que mais marcou para todo o sempre os meus sentimentos de patriota, foram os acordes vibrantes e eufóricos do "HINO DA RESTAURAÇÂO", com que a Banda Local do Pombalinho me acordava nas madrugadas dos PRIMEIROS DE DEZEMBRO, e do qual transcrevemos a seguir o segundo terceto do soneto da sua letra:

Avante! Avante!
É voz que soará triunfal!
Vá avante mocidade de Portugal "


Nota - Este texto foi extraído das "Memórias" do Vice-Almirante José da Cruz Moura da Fonseca. Este oficial da Marinha nasceu em Meimoa , Penamacor, em 14 de Outubro de 1913 e faleceu em Lisboa a 07 de de Agosto de 1998. Era filho de João José da Fonseca , simpáticamente conhecido no Pombalinho pelo professor "Fonsequita".



Colaboração documental - Joaquim MB Mateiro




9 comentários:

Vitor Reis disse...

A propósito do professor Fonsequita. Contava o meu tio Rui Borges, que foi aluno dele, que nas suas aulas,ao inquirir o aluno sobre determinada matéria e caso ele não a soubesse, costumava dizer: "-Vós não estudáis, mas apanhais que vos consoláis."
Os mais velhos, daquele tempo, lembrar-se-ão com certeza.

Magda Bragança Rubio disse...

Caro Manuel de Jesus Gomes,

Obrigada pela lembrança.

Fico muito sensibilizada por ter colocado uma passagem do meu Avô, Vice-Almirante Moura da Fonseca, e do meu Bisavô João José da Fonseca que, quando faleceu, ainda eu era muito pequenina para ter memórias dele, só as que o meu Avô me contava.

Logo que nos seja possível ter acesso a fotografias do meu Bisavô e da época e em que o meu Avô lá viveu, teremos todo o prazer de lhe as enviar.

Cumprimentos,

Magda M. Moura da Fonseca Bragança Rubio

Magda Bragança Rubio disse...

Só uma correcção: o meu Avô, Vice-Almirante José da Cruz Moura da Fonseca, faleceu em 07 de Agosto de 1998 e não no mês de Outubro.

Guilherme Afonso disse...

Caro Amigo Manuel Gomes
Sinceramente, diliciei-me com estas "Memórias" do Vice-Almirante José Cruz Moura da Fonseca. Estão cheias de vida, uma vida que se transmudou completamente, como ele próprio realça. Será que ainda alguém apanha a "papança", hoje, como eu tantas vezes fiz naqueles caminhos? Eu já não fui aluno do professor João José da Fonseca, mas muitas vezes ouvi falar dele. Mais um bom trabalho a enriquer o blog "opombalinho". Obrigado, e um
grande abraço.
Guilherme Afonso

MGomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MGomes disse...

Caro Victor Reis!

De facto o professor João José da Fonseca deixou no Pombalinho uma marca de que todos nos devemos orgulhar!

Um Abraço



Caro Amigo Guilherme Afonso!

Compreendo em parte este seu sentido nostálgico ao ler as memórias do Vice-Almirante José Cruz Moura da Fonseca! É um recuar no tempo que dificilmente terá correspondência nos dias de hoje!!! Quem comerá "papança", ou dela saiba o que é, de entre a rapaziada destes novos tempos? Nenhuns mesmo, acho eu!!!
Mas é bom, estes pequenos passeios ao caminho percorrido da vida...

Uma Abraço

MGomes disse...

Boa tarde,Magda Bragança Rubio!

Muito obrigada pela sua visita a este espaço sobre o Pombalinho! E também pelas palavras! É sempre muito reconfortante sabermos de pessoas, ou seus descendentes, que estiveram ligadas por algum motivo à história do Pombalinho. E o caso do seu bisavô, é (foi) um bom exemplo para uma ou mais gerações de "pombalinhenses"! Por aquilo que fez na área do ensino, mas também por uma forte presença de simpatia que angariou nesta terra que serviu durante quase trinta anos. São estas marcas da vida, afinal, que sempre perdurarão na memória dos tempos e das pessoas!

Quero-lhe agradecer também pela sua disponibilidade em me arranjar fotos ou outros documentos que tenham a ver com a estadia do seu bisavô no Pombalinho! E já agora, agradecimento este, também extensivo ao seu pai por ontem me ter contactado telefónicamente para o mesmo efeito! Muito obrigado a ambos!

Respeitosos cumprimentos
Manuel Gomes

templario disse...

Sinto sempre um gosto imenso em visitar e ler posts do Pombalinho.

As pessoas, o povo da terra, as famílias, os costumes, adquirem aqui a importância devida, tratados com carinho e seriedade, com amizade e devida importância.

Para manter um blogue assim, é preciso simplicidade e talento. O resultado está à vista.

Vou sempre passar por aqui.

MGomes disse...

Caro, Templário!

Agradeço-lhe a simpatia da visita!

As palavras motivam o autor e o grupo de trabalho que tem contribuído para este caminho histórico do Pombalinho!

Um Abraço e volte sempre!